• Eduarda Dutra de Souza, Msc

O que é essa tal de Logística Reversa?

Áreas de atuação e etapas reversas

A crescente atenção dados aos temas ambientais pela sociedade e pelos governos de diversos países trouxe este tema para a mesa de debate de empresários e gestores de diversos ramos de atuação, forçando a sua incorporação às estratégias e práticas empresariais. Devido a todo esse cenário é importante compreender o que é Logística Reversa, qual sua importância e qual sua vantagem para você como empresário e colaborador da área de logística. Este artigo tem como intuito desmitificar a logística reversa como um tema acadêmico e distante, enfatizando sua aplicação no meio empresarial .

Logística e o desafio da sustentabilidade

O grande desafio das próximas décadas será a habilidade de criar um sistema econômico mais sustentável, que permita conciliar a manutenção e melhoria do padrão de vida das populações ao redor do globo terrestre ao mesmo tempo em que são freadas as mudanças climáticas e o uso dos recursos naturais. Em termos simples, busca-se um modo que permita que a sociedade continue a consumir produtos, que as empresas continuem produzir e obter receitas, mas que sejam neutralizados os impactos ambientais.

O Brasil não está alheio a este contexto, e assim como outros países, tem assumido compromissos ambientais e tem sido pressionado por políticas e resultados concretos neste campo. No que tange à destinação itens manufaturados a legislação brasileira incentiva a aplicação da logística reversa pelas empresas por meio da Politica Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Esta politica é uma lei (Lei nº 12.305/10) que busca organizar a forma com que o Brasil lida com lixo, exigindo uma responsabilidade compartilhada entre os elos de uma cadeia de suprimentos. Atualmente a lei engloba as áreas de medicamentos, eletroeletrônicos, pilhas e baterias, lâmpadas fluorescentes, agrotóxico, pneus e óleos lubrificantes e sua aplicação vem se materializando através iniciativas por parte dos envolvidos e da cobrança governamental.

A crescente importância e atenção dispensada aos fluxos reversos das cadeias de suprimentos aponta os holofotes para Logística Reversa, que desempenha um papel fundamental na gestão e operacionalização sobre os materiais que precisam ser retornados; envolvendo, além das áreas de transporte e estoque, mas também o gerenciamento de operações ambientais na cadeia de suprimentos durante a produção, consumo, serviço ao cliente e disposição de produtos pós-uso (LINTON; KLASSEN; JAYARAMAN, 2007).

Logística Reversa

A Logística Reversa, também conhecida como LR, é o retorno do produto para o processo produtivo. Isto é, sabe aquele produto que você consumiu e irá descartar em um lixo? Ai que entra o primeiro grande exemplo da logística reversa ao trazer este produto ou seus materiais de volta para cadeia produtiva. Esse primeiro exemplo é conhecido como pós-consumo, ou seja, após você consumir algum produto você irá devolver para a cadeia de suprimentos.

O segundo grande exemplo é aplicação da logística reversa de pós-venda que nada mais é que quando compramos um produto é ele apresenta uma falha. Isto é, um defeito ou erro do processamento, e com pouquíssimo uso ou sem uso devolvemos esse produto para as empresas. Então garantia faz parte da LR? Sim! A garantia irá aplicar a LR para conseguir pegar o produto com defeito e trazer novamente para a empresa.

A logística reversa - conforme a figura 1 - envolve todas as atividades associadas ao retorno do produto e possibilita um descarte correto do material consumido e pode também ser definida como um “processo pelo qual uma empresa de manufatura retorna sistematicamente produtos ou peças anteriormente embarcadas do ponto de consumo para uma possível reciclagem, remanufatura ou disposição” (DOWLATSHAHI, 2010, NIKOLAOU ET AL., 2010).

Figura 1 - Logística Reversa: Área de Atuação e Etapas Reversas

Fonte: Paulo Roberto Leite, 2002


De forma resumida. denominaremos de Logística Reversa de Pós-Venda a área responsável pela operacionalização do fluxo de produtos e informações logísticas correspondentes de bens de pós-venda (logo após ou em curto espaço de dento a venda). O seu objetivo é o de agregar valor ao produto devolvido por razões tais como erros no processamento dos pedidos, garantia, defeitos ou falhas.

Por sua vez, denominaremos de Logística Reserva de Pós – Consumo à área que operacionaliza o retorno dos bens descartados pela sociedade que regressam ao ciclo de negócios ou ao ciclo produtivo através de canais de distribuição reversos. Seu objetivo é o de agregar valor a um produto constituído por bens que possuam ter alguma funcionalidade através dos recursos de reuso, desmanche, reciclagem, remanufatura e reutilização.

Importância da Logística Reversa

Um processo básico de LR compreende as seguintes atividades: coleta, inspeção, classificação, desmontagem e disposição (BADENHORST, 2013). Segundo Barker e Zabinsky (2010), existem três motivos principais para que as empresas invistam em LR.: legislação, valor econômico nos produtos de pós-consumo e imagem da empresa, pois os consumidores estão buscando por empresas que adotem uma solução “verde” para seus resíduos.

Quando de trata de analisar a importância de algum tema empresarial é sempre fazê-lo sob a ótica dos seus stakeholders (partes interessadas), que segundo os autores Brito e Dekker (2003) seriam os elos da cadeia de suprimentos, tais como fornecedores, fabricantes, atacadistas e varejistas. Tibben-Lembke e Rogers (2002) complementa ao afirmar o consumidor como o principal stakeholder do fluxo, pois são eles os responsáveis pelo retorno dos produtos pós-consumo. Isto é o principal desafio da aplicação da LR é o envolvimento dos clientes neste retorno do material.

Sabe-se que os consumidores estão cada vez mais exigentes e com mais opções de compras, sendo assim, a logística reversa de pós consumo contribui para gerar uma imagem positiva da marca; associando-a aos cuidados com a natureza e com o próximo. Este ponto tem sido percebido por uma parcela crescente de clientes, mais sensíveis às questões ambientais. Desta forma, ter uma política de retorno de materiais consegue aproximar ainda mais a empresa do cliente e gera uma publicidade positiva, capaz de atrair novos clientes.

Já no caso da logística reversa de pós venda, o cliente já pressupõe que possui esse direto. Isto é, o consumidor espera ao comprar um produto que tenha uma política de devolução e troca; sendo assim, caso não exista um programa eficaz neste sentido a empresa automaticamente perde valor perante os clientes. Afinal, o mercado está extremamente competitivo é um diferencial obrigatório é ter retorno de materiais com erro de processamento, com defeito ou apenas por não satisfazer o cliente.

Além dos benefícios de relacionamento com os clientes e melhoria de imagem é relevante o impacto econômico advindo das diversas possibilidades de reinserção nas cadeias produtivas dos materiais coletados nos fluxos de retorno no pós-venda e pós-consumos. Existe, por exemplo, um mercado bem consolidado que faz a compra de sucata de ferro, cobre e alumínio para que os mesmos sejam fundidos e reutilizados na indústria. Também é comum o uso do vidro, papel, borracha, PVC e EPS para substituir parcial ou totalmente matérias-primas virgens na produção, reduzindo o custo de produção e a extração de matérias-primas da natureza. Em se tratando de peças, componentes ou mesmo de produtos completos, o ganho econômico decorre da recuperação e reutilização destes permitindo que sejam comercializados novamente e recuperando grande parte do valor total original.

Impacto nos custos logísticos

Existe uma percepção de que a implementação da LR traz aumento de custos, será esta uma verdade? No tópico anterior trouxemos uma visão geral de benefícios advindos da LR, mas não haveriam custos adicionais decorrentes da gestão e operação dos fluxos reversos na cadeia? Neste ponto, deve-se reconhecer que existem custos adicionais de gestão e na operação logística, afinal o estabelecimento de pontos de coletas, o transporte reverso, a gestão dos materiais e sua destinação são atividades adicionais ao fluxo direto tradicional. Entretanto, além dos benefícios econômicos já citados e dos ganhos de imagem e vendas, sob ponto de vista de custos é possível adotar práticas que tragam a redução destes.

No pós-venda, as principais ações para redução de custos estão voltadas às politicas de devolução e na melhoria no ciclo do pedido para que ocorram menos erros de processamento do pedido. No caso da política de trocas, quando o consumidor sentir a necessidade de troca do produto pelo término da vida útil ou devido algum erro/defeito, deve-se otimizar a gestão interna e os custos de retorno e processamento. Num fluxo típico, o cliente aciona a empresa fabricante ou importadora pelos canais estabelecidos e solicita a troca ou devolução, obtendo para isso algum protocolo de envio ou crédito. Posteriormente, o cliente leva o material até o local de entrega ou a empresa passa recolhendo. Por fim, se for por troca o produto será entregue um novo e se for por pós-consumo será encaminhado para reuso, reciclagem, remanufatura ou descarte correto.

Para execução dos processos de pós-consumo, é mais comum e barato para a empresa que o cliente leve o material até um ponto de consolidação da coleta, que facilite recolhimento deste material. Assim, este ponto acumula uma quantidade maior de materiais barateando o custo de transporte. Outra forma eficaz de diminuição de custo é o uso compartilhado do transporte com outras empresas ou o a coleta combinada com o transporte de entrega feito para varejistas, ou distribuidores, onde normalmente estão situados os pontos de coleta. Esse tipo de retorno auxilia no descarte correto dos materiais, além de possibilitar a substituição de parte do material virgem adquirido pela empresa pelo material recolhido, trazendo assim redução nos gastos com compras.

Uma boa estratégia para instituir os programas de logística reversa é construir parcerias com cooperativas, transportadoras, prefeitura ou criar planos de fidelidade.

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Diretrizes para implantar uma operação de logística reversa

De forma simples cada empresa tem sua característica e um desenvolvimento próprio assim este artigo tem intuito mapear os passos básicos a serem aplicados. Deste modo dividimos em dois segmentos: pós-venda e pós-consumo.


No pós-venda recomenda-se observar os pontos a seguir:

  1. Defina uma política de troca, devoluções e garantias. Uma dica é sempre ver até que ponto a empresa pode ir nesta política. Você, empresário, não é obrigado trocar porque o cliente não gostou ou ter uma garantia de 20 anos. Mas como já discutido são itens que agregam valor e auxiliam no processo de fechamento da venda. Estabeleça limites de tempo assim como regras bem definidas e amplamente divulgadas

  2. Planeje o retorno do material, será por meio da loja física, uso dos correios ou será com uso de transportadoras. Esse é ponto que há um gasto, afinal já terá pago a primeira entrega e precisará pagar o retorno e uma nova entrega. Invista em cálculos de roteirização e diminuição de pontos de coletas, assim será mais fácil. Outra dica é usar o mesmo meio de transporte (principalmente se for contratos de ida-e-volta casado ou caminhão próprio).

Em termos de materiais decorrentes ao pós-consumo sugere-se adotar três pontos, conforme descrito abaixo:

  1. Escolha uma linha de produtos que você consiga desenvolver um projeto legal de reciclagem, reuso, remanufatura. A dica é iniciar aos poucos. Embalagens sempre são uma saída simples e que traz grande impacto. Há diversas empresas, que a cada 10 embalagens devolvidas, o cliente recebe um voucher desconto.

  2. Após escolher a linha de produto, é importante buscar formas de recolher esse material. Uma grande saída é construção de pontos de coleta, pois concentra todo resíduo em um só local que diminui os custos de transporte ou optar por quantidade mínima que também irá compensar os custos de deslocamento.

  3. Com a linha de produto feita e a escolha de retorno (modal de transporte, roteirização, mapeamento do custo) surge a parte da divulgação. O cliente é o principal combustível para funcionamento da logística reversa. Isto é, sem ele não há logística reversa. Você precisa divulgar sua politica e usar isso como marketing verde da empresa. Incentivar a participação do cliente sempre é ponto importante como o exemplo dos voucher, brindes, descontos ou até agradecimento demonstrando o que esse cliente auxiliou no mundo.

Considerações finais

Tradicionalmente a logística dos fluxos reversos é tratada como uma atividade secundária e por vezes como um mal necessário, pois as atenções estão voltadas ao fluxo direto de transformação e distribuição. No entanto, com o aumento dos custos de matérias-primas, a necessidade de trocar produtos obsoletos e fora de validade nos pontos de vendas, aliadas a novas legislações ambientais e de proteção ao consumidor, não é possível improvisar na gestão dos fluxos reversos, sob pena de gerar custos por ineficiência operacional, prejudicar o relacionamento com os clientes, ou mesmo perder benefícios econômicos.

A logística reversa, assim com as tratativas administrativas de retorno de materiais precisam ser incorporadas aos processos das empresas, e tratadas com suporte adequado de recursos e meios para garantir fluxos contínuos e eficientes de retorno, sem improvisação ou amadorismo.


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Referências Bibliográficas

FINK, Arlene. Conducting research literature reviews: From the internet to paper. Sage, 2005.

LINTON, Jonathan D.; KLASSEN, Robert; JAYARAMAN, Vaidyanathan. Sustainable supply chains: An introduction. Journal of operations management, v. 25, n. 6, p. 1075-1082, 2007.

DOWLATSHAHI, S. H. A. D. A cost-benefit analysis for the design and implementation of reverse logistics systems: case studies approach. International Journal of Production Research, v. 48, n. 5, p. 1361-1380, 2010.

NIKOLAOU, Ioannis E.; EVANGELINOS, Konstantinos I.; ALLAN, Stuart. A reverse logistics social responsibility evaluation framework based on the triple bottom line approach. Journal of cleaner production, v. 56, p. 173-184, 2013.

LEITE, Paulo Roberto.; BRITO, Eliane Pereira Zamith. Logística reversa de produtos não consumidos: práticas de empresas no brasil. Revista Eletrônica de Gestão Organizacional. Número 3. 2005.

LEITE, Paulo Roberto. LOGÍSTICA REVERSA: NOVA ÁREA DA LOGÍSTICA EMPRESARIAL. Revista TecnologÍstica, Editora Publicare: São Paulo, 2002




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